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Acidente no Itaquerão: legado de Sérgio Naya ainda assombra o Brasil

Moro atualmente em Praga, na República Tcheca, um pequeno país localizado na Europa Central que faz divisas com a Alemanha (Oeste), Áustria (Sul), Polônia (Norte) e Eslováquia (Leste), portanto, o horário local aqui é o mesmo de Espanha, França e Itália, fato que me dá uma certa comodidade para assistir aos jogos da Liga dos Campeões às terças e quartas-feiras à partir das 20h45.

Ontem à noite me diverti acompanhando dois jogos que a TV tcheca transmitiu: Real Madrid x Galatassaray e Manchester City x Plzen (sendo que este último time é o único representante da República Tcheca na competição). As duas partidas foram ótimas com vitórias dos espanhós por 4 a 1 e dos ingleses por 4 a 2. Foram tantos gols que quase quebrei o controle remoto da TV trocando de um canal para o outro.

Os dois jogos terminaram praticamente ao mesmo tempo às 22h30 e, como de costume, troquei de canal para assistir na CNN e BBC as principais manchetes da última hora. Foi então que fiquei estarrecido ao ler que dois operários que trabalhavam na contrução do estádio sede da abertura da Copa do Mundo de 2014, em São Paulo, morreram após um guindaste cair sobre o telhado da obra. A notícia parecia soar como uma bomba!

Trabalhadores civis dentro do Itaquerão em julho de 2012

Trabalhadores civis dentro do Itaquerão em julho de 2012 Photo: Juvenal Pereira/Monitoramento Minstério do Esporte copagov via photopin cc

Hoje de manhã, ao chegar no escritório, lí mais detalhes sobre o assunto e percebi que enquanto uns condenavam o ocorrido, outros diziam que acidentes como este podem ocorrer em qualquer lugar. Opiniões à parte, a tragédia na verdade rechaça o legado deixado por Sérgio Naya na construção civil brasileira: ninguém tem culpa de nada, foi um acidente lamentável e a vida segue.

Sérgio Naya faleceu em 2009 aos 67 anos, mas ganhou notoriedade em 1998 por ser o principal acionista da Construtora Sersan, responsável pelas obras do edifício Palace II que desabou em fevereiro daquele ano matando 8 pessoas e deixando centenas de outras desabrigadas. Ele chegou a ser condenado e preso por mais de cem dias, mas saiu da prisão pelas portas da frente para, mais tarde, ser julgado novamente, desta vez sob a acusação de crime culposo em vez de doloso. No final, a responsabilidade pelo ocorrido recaiu sobre o engenheiro da Sersan que assinou a obra, já que Sérgio, embora fosse arquiteto, era acionista da empresa e, portanto, não poderia responder pelo crime. Em 2000, a IstoÉ Online chegou a publicar uma nota dizendo que Sérgio Naya havia sido condecorado pelo Sindicato dos Construtores Civis do Distrito Federal com o Prêmio de Mérito da Construção Civil. Ele morreu sem ter pago muitas das indenizações que lhe foram impostas pela justiça.

Mas o que é que Sérgio Naya tem haver com o Itaquerão?

Na verdade, de concreto, nada! Ele nem sequer estava mais neste mundo quando o estádio foi confirmado para ser sede da Copa de 2014. Entretanto, o caso Sergio Naya escancarou um precedente para que tragédias como a de ontem pudessem se repetir no Brasil, manchando não só a vida de muitas pessoas, mas também o nome do país no mundo. Ele saiu daquela tragédia com alguns arranhões, mas nem sequer feriu-se gravemente, pelo contrário, ele terminou fortalecido com o fato de ter sido preso e depois absolvido do mesmo crime. Um embarasso gigante para a Justiça brasileira!

Até hoje muitas vítimas do Palace II aguardam por justiça! E pior, até hoje novas leis que poderiam evitar a repetição da história jamais foram colocadas em prática. Trabalhadores civis continuam sendo tratados como  boi de pasto, ou em certos casos em situações piores. São constantes as denúncias de trabalho escravo nesta área e no ano de 2013 a cidade de São Paulo assistiu duas tragédias que marcarão para sempre o país: Itaquerão e a queda de um prédio em construção no bairro de São Mateus matando 9 trabalhadores. Por “coincidência” nordestinos que históricamente ajudaram a erguer a cidade de São Paulo, mas são constantemente maltrados por parte da sociedade paulista (mas isso já é uma outra história).

As mortes no Itaquerão podem ter ocorrido por “forças do destino” ou devido a um erro humano. Pode ter sido a gaivota, o urubu, o porco, o pato, o cisne, o ganso, o bambi, a macaca ou o peixe que passavam por lá e distraíram quem controlava o guindaste. Mas pode ter sido também culpa da negligência dos que assinam documentos em escritórios com ar condicionado, ganham milhões, mas pouco fazem pela segurança e treinamento de seus empregados.

É possível que as vítimas do Itaquerão venham a ser homenageadas no local, mas nada trará essas vidas de volta. Portanto, a pergunta que fica é: será que não está na hora de rever as condições de trabalho que construtores civis são submetidos no Brasil? Ao menos o país passaria a “seguir a vida”  com certa dignidade, em vez de repetir as tragédias do passado em um futuro recente.

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This entry was posted on November 28, 2013 by in Geral, Português, Uncategorized.
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