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Beyond the News

Classe média atual age da maneira que sempre condenou

A primeira semana do mês de outubro de 1992 parece que nunca sairá da minha memória. Eu estava prestes a completar 13 anos e a ponto de terminar a sexta série do primeiro grau. Até então, estudava em uma escola pública no município de São Bernardo do Campo, em São Paulo, onde convivia com jovens de várias classes sociais, desde os que moravam em barracos na então famosa favela do DER, até os mais privilegiados da classe média-alta, cujos pais se orgulhavam de ter comprado apartamentos um por andar no bairro Chácara Inglesa. Foi aí que passei a entender o conceito de diferença social.

Calmo dia no centro de São Paulo; a classe média começa a acordar Foto: Andre M. Pinto

Calmo dia no centro de São Paulo; a classe média começa a acordar Foto: Andre M. Pinto

Entretanto, o que me marcou na primeira semana de outubro de 1992 foi minha primeira experiência em assistir ao vivo na TV um massacre humano, o assassinato de 111 presos no presídio do Carandirú, na zona norte de São Paulo. Meus pais nunca foram de impedir ou censurar o que eu via na telinha e sempre estiveram presentes na minha formação de forma positiva. Entretanto, quando o derramamento de sangue terminou, chegou a hora de debater sobre o assunto e comecei a perceber algumas divergências entre o que eu e eles pensavam.

Sinceramente, meus pais não forçaram uma opinião concreta sobre o caso, pois estavam mais interessados em me ouvir. Entretanto, no fundo, acho que eles não queriam justificar a violência que alí ocorreu, mas também sei que não estavam muito contentes com essas “idéias” de direitos humanos. Cresci em um âmbito social de classe média e não foram poucas as vezes que ouvi de amigos e familiares coisas do tipo: “menos 111 para nos atormentar”, ou então, “esses direitos humanos só estão preocupados com os bandidos” e até mesmo “tomará que matem mais”.

Mesmo ainda criança eu não aceitava esse comportamento. Achava que algo estava errado alí e que quem morreu também era vítima. Eu não nunca fui a favor de criminosos, entretanto, eu já entendia que os presos alí simplesmente exigiam o que lhes era de direito. E também indagava: como alguém que é tratado dentro de uma cela como um animal pode voltar à viver na sociedade de forma humana? Não dá!

Os anos foram se passando e o Aqui Agora virou moda, não só na TV, mas também na mídia impressa. Era só torcer o jornal para derramar um rio de sangue. E a classe média passou a aplaudir tudo isso. Apresentadores revoltados, acertando cacetete nos câmeras ou quebrando o estúdio estavam a ponto de se tornarem heróis.

Neste meio tempo, a classe média brasileira passou a usar suas próprias armas para se “proteger” do resto do país. Portanto, em vez de ir às ruas e pedir ao governo a criação de planos sociais para melhorar a vida de todos, muros altos foram construídos e grades colocadas na janelas. O negócio era apontar o dedo para o bandido, condená-lo, fechar a cortina e fim de história.

Não foram poucas as vezes em que ví pessoas próximas à mim rindo da minha cara quando dizia que a criminalidade é fruto da falta de oportunidades e que o governo pouco fazia para mudar isso. Diziam que oportunidades não são dadas, mas sim conquistadas. “Eu comecei a trabalhar com 12 anos de office-boy, meus pais também não tinham dinheiro, criaram os filhos e nunca partiram para o crime”, era um dos argumentos que mais ouvia para defender a execução sumária no Brasil. Argumento este que não tem pé nem cabeça, pois a população brasileira aumentou muito após os anos 70, a infra-estrutura diminuiu e a miséria se estabeleceu no país, principalmente nos grandes centros urbanos; como podemos esperar que toda essa gente continue lutando honestamente?

Não dá! Sempre haverá um ou outro que perderá a cabeça. Ninguém tem sangue de barata e muitos não contam até 3 antes de reagir. Não sei como eu agiria vendo meu filho passando fome, mas certamente não ficaria sentado esperando algo cair do céu e, talvez, iria para o tudo ou nada. Triste? Sim, muito.

Ainda nos meus 13 anos, e indo mais a fundo nos problemas sociais do Brasil, descobri como a polícia agia dentro das favelas; e não era muito diferente do que se testemunhou dentro do Carandiru. Já naquela época achava que deveríamos acabar com a PM, mas dizer isso poderia me levar à uma internação em uma clínica psiquiátrica. “O moleque perdeu a noção!”

Mas lá se vão mais de 20 anos e aqui estamos em 2013. Acompanho de fora do Brasil as manifestações pelo país. Muitos que alí estão fazem parte da classe média, não há dúvidas de disso, e fico feliz de saber. A classe média começou a sair do armário! E espero que saia mesmo, em todos os sentidos! Uma importante parte da nação que finalmente acordou, já que a outra grande parte sempre esteve de olhos bem abertos, pois poderiam ser mortos pela polícia.

É fácil perceber que as reinvindicações atuais são para atender a classe média: melhor transporte público, mais segurança, hospitais, educação etc. Tudo aquilo que ela sempre pagou 2 vezes através de impostos e para empresas privadas estão sendo exigidos agora. Acho essa reação muita bonita e torço para que continue assim! Só que neste caldo tem muita azeitona amarga tentando estragar tudo. São aqueles que agem exatamente como eles e seus pais sempre condenaram: com violênica desnecessária.

E não estou me referindo aqui às depredações, mas sim à forma como alguns protestos foram levados às ruas. Pedir a volta da ditadura militar ou pena de morte no Brasil é simplesmente uma ignorância que vai além da minha imaginação. Só pode ser brincadeira! Lembre-se que um dos motivos pelo qual os protestos aumentaram foi justamente devido à força bruta da PM contra manifestantes pacíficas, a prisão de jornalistas e o abuso de poder. Em outras palavras, esta mesma polícia que a classe média apoiava no passado continua descendo o porrete, só que agora as vítimas não são somente os “favelados”, mas também gente de sua gente. Entretanto, ela continua sendo aceita e apoiada!

Acabei de ler um artigo assinado pelo jornalista Leonardo Sakamoto entitulado “Tem medo de fazer política? Então, pede para sair” em que ele discute a maneira como alguns manifestantes protestaram mês passado. Nas fotos em que ele publicou dá para ver muita gente de classe média saindo pela primeira vez às ruas e exagerando.

Cartazes do tipo: “Nem sua mãe cobra R$3,30 Haddad” pode até soar engraçado e representar a forma como muitos se dirigem ao atual prefeito, mas ferem tanto quanto uma bala, pois se pessoas ínstruídas são capazes de escrever algo deste tipo quando ainda têm casa, comida e roupa lavada, não quero nem imaginar o que fariam se passassem fome e tivessem uma arma na mão.

Ou seja, a classe média, instruída e com poder de escolha age com mais ignorância hoje do que os menos favorecidos no passado,mas talvez isso ocorra somente porque este é um momento de transição. Espero!

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This entry was posted on July 12, 2013 by in Geral, Português and tagged , , .
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