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Sítio “eu paguei propina” pode chegar ao Brasil

Era outubro de 1997 e eu acabara de completar 18 anos. Como muitos jovens nesta idade estava afoito para tirar minha primeira CNH e, após passar pela prova teórica, fui para o teste prático que ocorria bem até a baliza. A minha instrutora da auto escola que assistia a tudo do lado de fora mandou eu parar na saída da vaga, pois dizia que eu havia acertado o mastro de ferro que demarcava a mesma. Fui reprovado. Desci do carro e procurei pela marca da colisão e nada ví. Ela (a instrutora) disse que o mínimo toque já me desqualificava e que não tinha tempo para muita conversa porque tinha de retirar o carro dalí o mais rápido possível.

Um problema mundial exige uma solução ao seu tamanho. Sítio eu paguei propina pode ajudar Photo: Darren Deans

Um problema mundial exige uma solução ao seu tamanho. Sítio eu paguei propina pode ajudar no combate à corrupção Photo: Darren Deans

Fui pra casa furioso pois sabia que não havia errado a baliza, mas tinha de aceitar a decisão. Ao contar esta história a amigos e familiares ouvia sempre: “não adianta, ou você paga pela carta ou paga por pelo menos 2 testes”. Não sei se eles queriam me confortar com essas palavras, mas no fundo no fundo eu ficava ainda mais revoltado com elas, pois não queria admitir o fato de que teria de pagar propina para ter minha primeira carta de motorista.

Quando cheguei na auto escola para agendar as outras duas aulas que era obrigado a fazer por ter sido reprovado, fui surpreendido com a notícia de que a minha carta havia sido emitida e a auto escola estava de posse da mesma. Eu então indaguei: “onde que assino para confirmar o recebimento da CNH?” esperando que a justiça havia sido feita e, portanto, estava a ponto de ir pra casa dirigindo o carro do meu cunhado que me dava carona aquele dia. Entretanto, uma senhora venho me informar que não poderia liberar a CHN naquele momento, pois deveria conferir se a carta não havia sido emitida por engano e completou: “volte aqui amanhã e eu terei mais informações”.

O meu cunhado surpreendentemente logo entrou na conversa: “Um momento minha senhora, eu vou ligar para o meu tio ‘Fulano de Tal’ (não vou citar nomes aqui, embora este senhor já tenha falecido) que trabalha no Detran, tenho certeza que ele poderá identificar o que ocorreu rapidamente”. Bem, encurtando a história, voltei pra casa com minha primeira carta de motorista em mãos – meu cunhado não deixou eu dirigir seu novo Tipo 0km.

Conto esta história porque sempre tentei acreditar que no Brasil nem tudo se é “no jeitinho”. Achava que esse negócio de “carta paga” era para quem não conseguia tirar a mesma de forma honesta. Mas me enganei. Mesmo tentando ser honesto no Brasil, muitas vezes você é obrigado a fazer as coisas por debaixo dos panos e, muito provavelmente, este teria sido meu destino neste caso; algo que não me faz sentir bem.

Entretanto, fatos como este não ocorrem somente no Brasil. Na Índia, a situação é um tanto quanto parecida. Muitos dos amigos indianos com quem convivi na Austrália diziam isso bem claro: “se não pagar por fora, nada se consegue”. Parece até uma cultura, uma regra imposta à sociedade.

Com o objetivo de mudar esta realidade foi criado na Índia o sítio www.ipaidbribe.com que em inglês significa “Eu Paguei Propina”. O objetivo deste canal de informação é de provir as pessoas com idéias de como driblar situações embarassosas em que são obrigadas a pagar propinas. Basicamente, e-mails são enviados com experiências do dia-a-dia e o sítio orienta o que pode ser feito (legalmente) em cada uma delas.

Tem também uma seção exclusiva para quem quer fazer denúncias e uma outra chamada “Eu Encontrei um Policial Honesto”. Apesar de ter raízes na Índia, o IPaidBride já funciona também na Grécia, Paquistão, Kosovo, Quênia, Zimbabwe e Marrocos. Azerbaijão e Ucrânia são os novos afiliados desta iniciativa. Há informação no sítio de que o Brasil se juntará a esses países “em breve”.

Será interessante ver como isso acontecerá, quem estará envolvido e como a página brasileira será desenhada. Poderíamos ter uma seção só para casos pequenos, como foi o meu na auto escola e outra para questões mais graves, como por exemplo: propinas pagas para agilizar processos de construção ou abertura de empresas.

O que certamente não faltará são histórias para contar. E das mais cabeludas e inacreditáveis. Eu espero que este sítio “eu paguei propina” ajude não somente no combate à corrupção, mas principalmente na mudança que a sociedade brasileira vem propondo ao país.

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This entry was posted on June 24, 2013 by in Geral, Português.
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