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O que o Brasil e a Suécia têm em comum

Sexta-feira passada foi um tanto quanto atribulada na Suécia, onde jovens encapuzados saíram às ruas e promoveram um quebra-quebra em bairros mais pobres da capital Estocolmo. O estopim teria sido o assassinato de um imigrante de 69 anos, morto pela polícia que invadiu seu apartamento após a suspeita de que ele estaria tentando agredir a mulher com uma faca. Essa manchete me lembra muito as notícias no Brasil nas décadas de 80 e 90.

São Paulo 2

A imensa cidade de São Paulo tem suas similaridades com Estocolmo Photo: Andre M. Pinto

É difícil de acreditar que Brasil e Suécia tenham alguma similaridade. O Brasil é grande, localizado na América do Sul, onde faz-se calor praticamente o ano inteiro. O Brasil tem uma história complicada, política e socialmente, e embora tenha crescido economicamente na última década, seus níveis de pobreza e riqueza estão longe de serem comparados com o do país nórdico.

Por outra lado a Suécia é um país pequeno, desenvolvido e onde a neve impera por quase 9 meses ao ano. A Suécia tem uma das mais altas taxas de desenvolvimento humano de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) publicado pela ONU em 2013, ocupando o 7º lugar, enquanto que o Brasil ocupa a 85ª colocação.

Colocando tudo isso junto e misturado ficaria difícil para imaginar que os dois países tenham algo em comum, certo? Certo, mas há muito mais nessa história para ser analisado e algumas similaridades acabam ganhando destaque.

Economicamente, ambos os países estão indo muito bem. De acordo com o Banco Mundial o Brasil ocupa hoje a 6ª colocação no ranking de maiores economias do mundo, enquanto que a Suécia está na 21ª posição. Por outro lado, a Suécia tem um alto desenvolvimento technológico que ajuda a sustentar a economia a longo prazo. Além disso, os altos impostos pagos internamente ajudam a equilibrar as contas do governo e, atrelado ao fato de que o país tem um baixo índice de corrupção, a Suécia consegue se manter bem no cenário financeiro internacional mesmo em tempos de crise.

Socialmente os dois países têm realidades completamente diferentes. A desigualdade social no Brasil é inimaginável na Suécia, mas isso não faz o país nórdico nem melhor, nem pior.

No último sábado eu fui assistir a final da Liga dos Campeões em um bar aqui em Praga, na República Tcheca, onde moro, e encontrei com duas estudantes de Ciências Políticas que mal sabiam o nome dos times jogando aquela noite. Foi então que começamos a conversar sobre política. Uma delas era da Suécia, enquanto que a outra era da Lituânia, mas mora no país nórdico já há muitos anos, e elas passaram a me explicar o que está acontecendo por lá. E o que eu ouvi foi preocupante, não só para os suecos, mas também para os brasileiros.

Como se sabe, os atos de vandalismo ocorreram em regiões mais pobres de Estocolmo (embora tenha se espalhado também para outras cidades) e são feitos por jovens que possuem poucas oportunidades de emprego, a grande maioria composta por filhos de imigrantes. Eu pedi então para que elas definissem o que é pobreza na Suécia e, como esperado, está muito longe do que vemos no Brasil. E então eu disse: “não vejo razão para esse tipo de atitude”. Foi então que veio uma resposta mais explicativa, diretamente ligada ao Brasil.

“O problema é que a Suécia sempre recebeu muitos imigrantes, principalmente refugiados. Quem comete esses atos de vandalismo hoje faz parte da segunda ou terceira geração de imigrantes, estas pessoas são mesmo desfavorecidas. Seus pais foram morar em áreas especialmente designadas para eles e nem se quer falam a língua local. Seus filhos até vão para a escola, mas dificilmente têm o acompanhamento dos pais que estão sempre trabalhando muito e têm pouco tempo pra ficar com eles. Além do mais, os pais não podem ajudar com dever de casa, por exemplo, pois não entendem o que o filho está estudando. Como resultado, eles crescem sem educação, cultura, informação; hoje nem a família nem o governo conseguem dar isso a eles”.

No momento em que ouvi essas palavras eu pude ver a realidade de São Paulo nas décadas de 80 e 90. Perguntei então se essas pessoas sofrem preconceitos por serem imigrantes, e a resposta foi: “Claro, se você colocar no currículum que mora naquela área, as chances de emprego despencam. Outra coisa, dificilmente quem mora nesses bairros terá chances de se envolver com outros suécos, então eles abrem seus próprios negócios, como restaurantes, e desenvolvem suas comunidades naquela área, e por alí ficam”. E então comecei a visualizar o surgimento das favelas no Brasil.

Bairros para imigrantes

Durante a minha conversa com as duas estudantes, a final da Liga dos Campeões continuava a todo vapor e o barulho nos atrapalhava muito. Entretanto, Kamila, a estudante de nacionalidade suéca, conseguiu me passar mais uma informação interessantíssima antes da gritaria tomar conta do bar.

Ela me explicou que na década de 60 o governo suéco criou um extenso programa de casas populares nos subúrbios de Estocolmo. Alí foram criados conjuntos de prédios e as pessoas poderiam levantar empréstimos no banco com juros baixíssimos e, assim, ter o próprio lar. E foi então que ela concluiu: “O problema é que o governo não pensou a longo prazo, eles resolveram o problema dos imigrantes daquela época, mas dividiu o país em dois. Agora, os filhos daqueles que compraram essas casas não têm atenção nem do governo, muito menos da sociedade”.

Eu tenho certeza que muita gente vai me criticar, mas devo dizer que este relato me remeteu ao programa “Minha Casa, Minha Vida” do governo brasileiro. E no caso do Brasil isso é ainda mais complicado, pois embora na Suécia transporte público, escolas, hospitais, etc foram pre-planejados e construídos ao longo do projeto, no Brasil a construção de casas populares muitas vezes são simplesmente a verticalização de favelas já existentes ou a criação de novos bairros afastados dos grandes centros onde não há o mínimo de infra-estrutura.

Mas isto não é só um erro do governo atual, pois acontece há anos no Brasil. O filme Cidade de Deus, por exemplo, discute esta questão. O bairro Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, também surgiu da construção de casas populares com a intenção de manter migrantes nordestinos longe do centro. A cidade (e hoje em dia o país também) foi dividido em duas partes e as favelas se proliferaram. Os filhos desses migrantes tiveram de optar por trabalhos alternativos; alguns batalharam honestamente, poucos conseguiram vencer, enquanto que muitos optaram pelo caminho “mais fácil”: o crime.

O Brasil está a ponto de repetir a própria história se os atuais projetos sociais continuarem a manter o foco somente na construção de casas e aumento da renda. É preciso mais do que isso. As pessoas que moram em locais mais pobres precisam ter acesso a educação, transporte público decente e saúde, no mínimo. O Brasil tem um déficit gigantesco de médicos e uma população muito grande, imagina se as crianças de bairros menos favorecidos tivessem acesso a uma educação que lhes dessem a chance de se tornarem médicos, advogados, professores… Isso realmente seria um divisor de águas no processo de erradicação da probreza, pois a Suécia é um grande exemplo de que a pior pobreza não é aquela onde falta dinheiro, mas sim onde a ociosidade toma conta da mente daqueles que poderiam  fazer a diferença no país!

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One comment on “O que o Brasil e a Suécia têm em comum

  1. Cristina
    June 23, 2013

    Mas uma das condições do Bolsa Família é a Criança na escola. Além disso, acho que alguém esqueceu de mencionar todos os progoramas voltados para a educação, a criação de universidades, escolas técnicas, que o governo federal está implantando. Pró-Uni, cotas, entre outros. O Brasil é um gigante, não é a mesma coisa que administrar uma Suécia.

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This entry was posted on May 27, 2013 by in Geral, Português.
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