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Lobão e Claudia Hoerig: dois casos que mostram a ignorância brasileira

Neste mês de maio de 2013 (que ainda não acabou) dois assuntos me chamaram muito a atenção: os comentários do músico Lobão à Folha e a possibilidade do governo norte-americano de frear a emissão de vistos permanentes para brasileiros. Em ambos os casos, o problema maior não são os “autores da obra”, mas a ignorância de parte dos brasileiros que lêem a “obra”. Vou começar pelo Lobão.

No Brasil, pessoas são condenadas antes mesmo do julgamento e outras vivem livres mesmo após a condenação, vai entender Foto: Andre M. Pinto

No Brasil, pessoas são condenadas antes mesmo do julgamento e outras vivem livres mesmo após a condenação, vai entender Foto: Andre M. Pinto

Lobão é um cara difícil mesmo. Mais uma vez chegou chutando o balde e tudo mais que via pela frente. Disse que Dilma Roussef deveria ser a primeira investigada na Comissão da Verdade e que os artistas abusam da Lei Rouanet. Falou que o grupo de rap Racionais MC’s é o braço armado do PT e não poupou ninguém do atual governo. O cara tá inspirado, embora eu ainda tenho lá minhas dúvidas com o que ele quis dizer com: “nunca ví ex-militar rico”.

Mas, pessoalmente, fiquei mais estarrecido com a atitude do Mano Brown (líder do Racionais) do que necessariamente com os comentários do Lobão. Mano Brown desbravou o sentimento da população mais pobre do Brasil nas décadas de 80 e 90. Justificava a violência devido a falta de oportunidades e em suas músicas chegou a dizer que era um “terrorista da periferia”. Gosto do Racionais, ouço suas músicas e compactuo com muitas idéias de Mano Brown, mas dessa vez acho que ele acabou se contradizendo demais ao afirmar que Lobão não sabe de nada e que poderia resolver isso na porrada.

Mano Brown representa a voz das favelas não só em São Paulo, mas também no Rio e no resto do país Foto: Andre M. Pinto

Mano Brown representa a voz das favelas não só em São Paulo, mas também no Rio e no resto do país Foto: Andre M. Pinto

O argumento que ele usou pra dizer que seu grupo não é um braço armado do PT foi através de uma ameaça, o que é um tanto quanto ridículo. Mano Brown deu a entender que Lobão deveria ficar calado pois não sabe nada da história do Racionais, e aqui ele novamente se contradiz. Pois se este é o argumento, então Mano Brown também não deveria responder à essa provocação, pois disse que poderia ir ao Rio de Janeiro para acertar as contas, enquanto que Lobão há anos mora em São Paulo.

Mano Brown admitiu em uma entrevista no programa Roda Viva da TV Cultura que ele é cheio de contradições e deu um belo exemplo ao afirmar que criticou muito a Nike no passado, mas que naquele momento estava calçando um tênis da marca norte-americana. Dito isto, eu espero que Mano Brown consiga rever seus conceitos e traga em seu próximo álbum um argumento mais concreto para debater com Lobão, mesmo que este seja o de admitir que o Racionais realmente é um braço armado do PT.

Entretanto, o pior de tudo isso é o fato de que Mano Brown mostra exatamente como parte dos brasileiros agem quando são criticados: de maneira agressiva! Eu duvido que ele se deu ao luxo de ler o manifesto do Lobão para pelo menos argumentar de maneira civilizada. E fatos assim ocorrem constamente no Brasil.

Veja o caso da brasileira naturalizada norte-americana Claudia Hoerig. Ela está sendo procurada pelo FBI por ser a principal suspeita do assassinato do marido Karl Hoerig, em 2007. No dia da morte de Karl, ela teria entrado em um avião rumo à São Paulo e agora a polícia dos Estados Unidos depende do governo brasileiro para capturá-la. O problema é que de acordo com a Constituição Nacional de 1988, brasileiro(a) não pode ser extraditado(a).

Claudia está na lista de procurados do FBI, mas vive livre, provavelmente em São Paulo, com o apoio do governo brasileiro Foto: Andre M. Pinto

Claudia está na lista de procurados do FBI, mas vive livre, provavelmente em São Paulo, com o apoio do governo brasileiro Foto: Andre M. Pinto

Como represália, o senador Tim Ryan (do Partido Democrata) do estado de Ohio apresentou uma emenda de lei que paralisa a emissão de visto permanente para cidadãos brasileiros na terra do Tio Sam. Uma medida que eu também acho ridícula, pois uma conversa entre Dilma Roussef e a ex-Secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, as quais são, respectivamente, 2ª e 4ª mulheres mais poderosas do mundo, poderia ter resolvido a situação de forma mais diplomática. Veja aqui a matéria completa na Folha. E veja também os comentários abaixo do texto. É de uma perplexidade sem tamanho.

Está muito claro que a maioria dos que fizeram críticas aos Estados Unidos após lerem a matéria na Folha não tem a mínima idéia do que ocorreu. Um deles chegou ao cúmulo de fazer uma comparação com o acidente da Gol em 2006 onde dois aviões se esbarraram no ar matando centenas de pessoas que viajavam pela empresa brasileira, o outro avião era pilotado por norte-americanos. E um dos argumentos para que o Brasil não extradite Claudia é o seguinte: “E os pilotos americanos que derrubaram o avião da Gol, matando 154 passageiros? Os norte-americanos o enviarão para julgamento aqui? Que as autoridades brasileiras apliquem a reciprocidade aos atos dos congressistas norte-americanos”. É de arrepiar!

Claudia tem cidadania norte-americana e, portanto, os Estados Unidos não estão à procura de uma brasileira e sim de uma cidadã dos Estados Unidos que foi declarada “fugitiva”. Isso pode mudar muito a situação, talvez não por questões legais, mas por uma questão de bom-senso. Além do mais os pilotos norte-americanos não fugiram do Brasil, mas foram liberados pela justiça local.

Eu não consigo acreditar que em um país onde a grande maioria bate palmas para policiais que matam sumariamente presidiários sem lhes dar a chance de um julgamento, venha aceitar essa posição do governo brasileiro, defendendo uma possível assassina. Independentemente da nossa constituição, temos de achar uma maneira de se fazer justiça aqui. Sei que é difícil e que Brasília até ofereceu uma solução à Washington: fazer o julgamento no Brasil, e isso foi negado. Entretanto, não podemos misturar as coisas! E se os Estados Unidos vierem à enviar os pilotos do Legacy, iremos mudar nossa constituição por isso? Acho que não! Portanto, o governo brasileiro precisa negociar. Este caso não interessa somente aos Estados Unidos…

Mas é assim mesmo, o povo e o governo brasileiro mostram mais uma vez como a ignorância pode ultrapassar qualquer nível de racionalidade. Nessa levada, o país demonstra ser egoísta ao cair em contradições das quais provam muito bem que a expressão “pimenta nos olhos dos outros é refresco” foi perfeitamente criada para a República Federativa do Brasil.

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6 comments on “Lobão e Claudia Hoerig: dois casos que mostram a ignorância brasileira

  1. rodrigoabravanel
    June 4, 2013

    Pois é Andre, brasileiro precisa deixar de ser emocional, invejoso (dos gringos), explosivo e raciocionar antes de falar besteira por aí.

    No caso da assassina Claudia Hoerig eu fico indignado com a (falta de) atitude governo brasileiro. Talvez ele não queira abrir precedente para que os políticos paguem por suas falcatruas, por exemplo, o pessoal do mensalão que deve ter muitos dólares nos EUA e deve ter passado a perna no fisco americano.

    Sinto vergonha de ser cidadão de um país que dá guarita à ladrões, assassinos e terroristas, enfim, protege a escória da humanidade desde os tempos da colonização portuguesa até hoje, passando pelo nazismo, assalto ao trem pagador e por aí vai.

    • Andre M. Pinto
      June 5, 2013

      Olá Rodrigo, obrigado por passar por aqui. Não sinta vergonha de ser brasileiro, mas sinta daqueles que estão no poder desde a colonização portuguesa. O Brasil tem que ser maior do que isso tudo! Abraços,
      André

  2. valuck
    October 17, 2013

    Fui procurar mais algumas informações sobre o caso Claudia Hoerig. Primeiro para saber porque curiosamente ela tendo duas nacionalidades (brasileira e americana) qual seria a sua de nascimento. constatei que é brasileira e portanto a segunda foi por ter se casado com cidadão americano. Segundo é suspeita de homicídio ou foi um homicídio qualificado ? Terceiro o marido morto foi piloto e condecorado (me parece ) na guerra do Iraque. Em função dessa última observação é que me reforça a suspeita que esse julgamento poderia ser uma “bandeira emblemática” de punição dita “exemplar” ao que representa toda uma corporação. As atenuantes que seriam a violência doméstica alegada pela defesa e os constantes maus tratos sofridos por Cláudia ficariam assim irrelevantes perante o “lesa honra”. A suspeita de que um crime com atenuantes fosse transformado em uma retaliação ao “corpo militar” é que pode ter configurado a fuga. Mas em hipótese alguma o governo brasileiro poderia fazer com que perdesse a nacionalidade brasileira em detrimento à americana, a meu ver .Me parece mais um julgamento emblemático e com um tratamento diferenciado com relação aos milhares que ocorrem tanto no Brasil quanto nos EUA. Vivemos tristes tempos em que “bodes expiatórios” nos remetem às práticas da guerra fria …

  3. valuck
    October 17, 2013

    Ps.: não questiono o julgamento, apenas suspeito que nesse caso específico o direito à defesa por parte da suspeita poderia ficar comprometido visto o alvo ter sido um cidadão americano identificado como “especial”.

    • Andre M. Pinto
      October 18, 2013

      Valuck, seus argumentos são fortes à favor da atitude do governo brasileiro. Algo a ser respeitado. Mas o que eu realmente contesto aqui é a atitude de muitos internautas em colocar nesta discussão outros assuntos, como por exemplo o caso do acidente com o avião da Gol, para justificar a não extradição da Claudia. Os pilotos americanos se apresentaram à Justiça brasileira e foram liberados pela mesma, não fugiram do país! Por que o governo americano teria de extraditá-los agora? Se há algo a contestar no caso da Gol é a Justiça brasileira e não a atitude do governo norte-americano.

      • valuck
        October 18, 2013

        Grato. Concordo plenamente com seu ponto de vista com relação ao episódio da Gol, André. São fatos e assuntos distintos. Tratados dessa forma como alguns pretendem fogem à lógica e caem na vala comum de uma infantil retaliação, de fundo “emocional”. No caso dos pilotos, goste-se ou não, correta ou não a decisão foi da Justiça e como você bem o disse, questione-se a Justiça brasileira se for o caso. Também percebo que muitos internautas são afoitos em julgar, sugerir, e exacerbar no tom de suas opiniões. Creio que enfrentamos um problema de “timing” nas escolas no que concerne às leituras de texto … rs. Me parece “leitura dinâmica” da pior qualidade. No mais não consigo ser otimista tendo essa “onda” que caminha rumo à “proficiência da mediocridade”. Deveríamos todos ser mais franciscanos e comedidos ao externar nossas posições. Abraço.

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This entry was posted on May 24, 2013 by in Geral, Português.
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