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Viajando na Europa: Portugal, surfe, sol e mar

Depois de quase 2 anos sem surfar eu decidi cair na estrada e ir até Portugal para sentir a água salgada no corpo e deslizar sobre as ondas do lado leste do Oceano Atlântico. Além do mais, foi uma oportunidade de conhecer locais históricos que eu somente ouvi falar através dos livros de história nos tempos de colegial.

A viagem de Praga à Lisboa teve uma rápida parada em Paris e pela primeira vez pude ver a Torre Eifel. Na verdade eu não tive tempo de andar pela capital francesa, mas a vista do avião é avassaladora. Realmente a torre é alta, mas o que realmente me chamou a atenção foi o fato da cidade de Paris ser bem dividida e organizada, o que me arremeteu à Sydney, na Austrália, onde a visão area (e terrestre também) lhe dá a sensação de que você está chegando à um parque de diversão, onde os edifícios foram todos construídos assimetricamente.

Ida à Lisboa foi mais que turismo, foi um retorno aos meus anos no colegial Foto: Andre M. Pinto

Ida à Lisboa foi mais que turismo, foi um retorno aos meus anos no colegial            Foto: Andre M. Pinto

A parada no aeroporto Charles de Gaulle foi rápida, menos de 1 hora, mas fiquei impressionado com o seu tamanho. O avião ficou por volta de 30 minutos taxiando até chegar ao angar, para ser sincero eu já estava ficando impaciente com aquele “tour”. Depois de pegar um ônibus do angar até o terminal, finalmente cheguei à tempo de entrar no meu vôo à Lisboa. Apesar da bagunça com a superlotação do saguão, fiquei encantado com os assentos de espera, que mais parecem cadeiras de praia reclináveis!

Mas por outro lado pude, mais uma vez, ter uma boa idéia de como o terrorismo vem atormentando a vida das pessoas nos chamados “países de primeiro mundo”. Eu ví crianças que aparentavam ter  4 anos de idade passando pela revista dos seguranças ao acessar o terminal. Uma cena até certo ponto chocante.

Deixando isso de lado procurei me concentrar em achar qual das filas de espera era referente ao meu vôo à Lisboa. Era tanta gente que mais parecia aquelas muvucas em porta de estádio de futebol em dia de clássico.

O vôo entre Paris e Lisboa foi rápido, apenas 1 hora e 15 minutos. A chegada à Portugal foi um tanta quanto tensa, pois chovia forte e a turbulência levou o tiozinho ao meu lado rezar tanto pai nosso que por um momento achei que ele está fazendo a presse até de trás pra frente.

Eu cheguei à Portugal um dia após o primeiro-ministro José Sócrates renunciar diante de uma das maiores crises econômicas já vividas no país. Portanto, muita expectativa sobre o que estava por vir, pois sabia que o ânimo das pessoas não era dos melhores. Mas mesmo assim fui em frente e diante de uma torrencial chuva parei para pedir informação de como pegar um ônibus até a rodoviária da cidade, pergunta à qual fiz em português (eu acho) e que foi respondida assim pela atendente: ‘’It´s over there, at the last stop’’. Fiquei parado por alguns segundos tentando entender se o meu português não é claro ou se eu fiz a pergunta em inglês. Enfim, deixa pra lá… onde é mesmo que eu pego o ônibus…? Ah certo, last stop!

Visual deslumbrante na viagem de auto-carro de Lisboa à Peniche Foto: Andre M. Pinto

Visual deslumbrante na viagem de auto-carro de Lisboa à Peniche Foto: Andre M. Pinto

O motorista do ônibus foi muito educado, me explicou onde deveria descer para pegar o ‘’auto-carro’’ rumo à Peniche. Ah,ha! Agora sim percebi a gafe, eu estava em um ‘’auto-carro’’ e não em um ‘’ônibus’’, talvez esta seja a razão que fez a garota a me responder em inglês…Bem, mal sabia eu que isso era só o começo…

Chegando na rodoviária e comprei o bilhete do auto-carro que sairia em 1 hora. A chuva já havia diminuído e a fome começou a bater. Não resisti e logo de cara já mandei um risolis de camarão com Guaraná Antarctica para refrescar e matar a saudade! Em seguida, o calor após a chuva me deu sede e fui buscar uma água: “Natural ou fresca?”, pergunta a vendedora. Bem, como eu não gosto de água com gás disse sem pensar duas vezes: “Natural por favor”. Ela então pegou a primeira água que viu em cima do balcão. Sem entender nada, e um pouco bravo, disse: “Você não tem nenhuma garrafa na geladeira com água gelada?”. Eu pude ver um ponto de interrogação no rosto da vendedora que me respondeu: “Mas eu perguntei se quizestes natural ou fresca. Tu disseste natural”. Bem, imaginem a minha cara…?

Já angustiado com a espera na rodoviária e sem nada a fazer, decidi por comprar pipoca. Foi quando me deparei com um indivíduo tão estranho, tão estranho, que se colocasse a foto dele na capa da revista MAD ninguém nem ia perceber a diferença… Meu Deus, onde estou?

Enfim, subi no auto-carro rumo a Peniche, um vilarejo localizado à cerca de 100km ao norte de Lisboa. Esta região pesqueira é muito linda, cercada por mata nativa, incluíndo dunas, e algumas ruas de terra. Por lá fiquei por 1 semana.

Surfe

É impossível ir para Peniche e não surfar, todo dia tem onda por aquelas bandas. O surf point mais conhecido é Supertubos, onde rola uma das etapas do mundial de surf WCT. Apesar de ser um beach break, a onda é bem potente e dependendo da direção do swell quebram direitas OU esquerdas ou direitas E esquerdas. O meu surf camp estava localizado na praia do Baleal perto ao Cantinho da Baía, à cerca de 10 minutos de carro de Supertubos. Alí é um beach break como outro qualquer e que varia de acordo com a maré.

Supertubos ao amanhecer, infelizmente neste dia estava fechando um pouco Foto: Andre M. Pinto

Supertubos ao amanhecer, infelizmente neste dia estava fechando um pouco Foto: Andre M. Pinto

O mais interassante alí é que o local é a ponta entre duas costas que se juntam e formam uma espécie de ilha entre duas praias. Um braço de areia mantém a “ilha” ligada à avenida principal. Apenas um carro por vez pode atravessar de um lado ao outro ou vice-versa, como se fosse uma ponte.

Já do outro lado tem um point break clássico, Lagido. Uma esquerda perfeita que quebra sobre uma laje e que (em dias grandes) pode render longos e perfeitos tubos. Dalí a visão é incrível, pois o mar é aberto e é possível avistar longe a costa norte de Portugal. Ainda seguindo mais adiante, um outro pico perfeito é Almagreira. Para chegar lá é preciso pegar uma estradinha de terra que faz a ligação até à beira de um “precipício”. Do alto é possível ver esquerdas perfeitas quebrando quase que sozinhas!

Meu primeiro dia na água foi no domingo de manhã. Era por volta das 6h quando entrei. O tempo estava nublado, o mar meio mexido, a água extremamente congelante neste fim de inverno, e o único sinal de surfista que eu poderia ver em volta era a minha própria sombra.

Não importa o dia ou a hora, em Peniche sempre tem onda quebrando em algum lugar Foto: Andre M. Pinto

Não importa o dia ou a hora, em Peniche sempre tem onda quebrando em algum lugar Foto: Andre M. Pinto

Não pensei duas vezes e me atirei. No primeiro mergulho meu rosto começou a queimar de tanto frio e mesmo usando um “fato” (roupa de borracha) ¾ eu quase congelei, mas não desisti. Continuei à remar até que uma série de 1 metro e meio entrou varrendo tudo. Tentei remar forte para passar a arrebentação. A primeira onda eu passei, mas a segunda não teve piedade… O caldo foi inevitável. Welcome back! Quando voltei à tona tomei outra e mais uma depois até perceber que havia sido varrido para praia. À essa altura já alcançava o fundo e tinha água pela barriga

Resolvi sair e respirar um pouco. Voltei para o surf camp, onde todos alí ainda dormiam. Fiz um lanche, tomei uma Coca-Cola gelada e mandei um biscoito de chocolate. Deitei em um banco de madeira e tirei um cochilo até acordar com o sol à pino. Levantei, peguei minha prancha e “fato” e voltei para a praia. As ondas já estavam entrando com mais perfeição, a água verde estava mais convidativa e apenas 3 pessoas no outside era motivo para remar pra dentro sem medo de ser feliz. E assim foi, fiquei 5 horas surfando perfeitas ondas de 1 metro.

No dia seguinte decide tentar algo diferente e fui até Lagido para experimentar o point break. Estava horrível! Um crowd insuportável, chuva, ondas merrecadas sendo que as melhores (com cerca de meio metro) se resumiam à 1 onda da série que vinha a cada 1 hora. Nada espetacular, aliás eu já estava ficando um pouco entediado.

Ao voltar para o surf camp encontrei com um suéco que estava à ponto de entrar no carro para surfar em outras praias e perguntou se eu gostaria de me juntar à barca. Fomos até Supertubos, mas tava flat. Retornamos para Lagido, que estava horrível. Como o sol resolveu dar o ar da graça, perguntei se ele queria tentar Almagreira. Ele achou que eu estava de conversinha mole, mas pelo o que tinha estudado da região, o swell estava quebrando perfeito naquele pico.

Depois de nos perder por várias horas, chegamos à Almagreira e a visão do alto do “precipício” era simplesmente de sonho. 2 surfistas na água e esquerdas de 1 metro e meio quebrando perfeitamente. Quando estávamos nos preparando para entrar, chegaram dois locais que vieram pedir parafina. Eu comecei a conversar em português e ví que eles não estavam muito felizes com a minha presença, um deles disse: “Estive no Rio ano passado, fui perguntar pra um cara que horas são e ele me respondeu: ‘hora de sair da água porra’”. Bem, eu não estava certo do porque dele trazer essa conversa à tona, mas resolvi não perguntar. Na hora em que peguei a prancha o outro local disse apontando para onde as melhores ondas estavam quebrando: “O pá, estaremos à surfar aqui, mas podes também surfar mais para a direita alí onde tem boas ondas”. Bem, já esta mensagem foi um pouco mais clara…

No fim, acabamos dividindo o mesmo pico numa boa, pois Almagreira é uma máquina de onda. Você pega uma esquerda perfeita e longa e ao voltar para a arrebentação, já tem outra série de 5 ou 6 ondas.

Foram mais de 3 horas de surfe até que o swell mudou de direção e saímos da água. Fomos para o surf camp, mandamos uma macarronada e nos preparamos para o fim de tarde na Lagide.

O melhor ainda por vir

No fim da tarde meu amigo suéco puxava um ronco no sofá enquanto o tempo lá fora fechava para uma forte chuva. Eu não titubiei e vesti meu fato para correr rumo à Lagido. Chegando lá, um forte vento me fez pensar em voltar pra debaixo das cobertas, mas algo sobrenatural me empurrou pra dentro d’água onde somente meia duzia de cabeças tentavam surfar umas merrecas. O localismo era forte e praticamente estava à espera de um milagre.

Para piorar, a chuva virou um temporal e naquela altura do campeonato não tinha onda nem pra sair da água, portanto, fiquei alí refletindo um pouco. Quando a chuva diminuiu e o vento parou percebi que estava sozinho no outside. Para minha surpresa ao levantar a cabeça ví o milagre se materializando. Uma onda de quase 1 metro se emparadava lá fora, eu podia até mesmo ver a escrita: “Para André”. Virei, remei e surfei uma onda dos sonhos. Na volta, já pude ver gente remando em minha direção.

A maré baixou e mesmo sentado na prancha podia tocar as rochas pontiagudas da bancada, foi então que percebi que a brincadeira estava ficando séria. Um sul-africano com sua esposa inglêsa e um inglês que morou no mesmo bairro que eu em Sydney por 2 anos, entraram no mar e começamos a conversar. Por 2 horas eramos só nós quatro no pico. Perfeito fim de tarde!

A semana foi me consumindo com boas ondas. Na quarta-feira meu braço doía tanto que não conseguia levanta-lo nem pra lavar o cabelo. Então, resolvi relaxar e fazer um turismo na região. Conheci um brasileiro chamado Francisco que morava alí já há quase 1 ano. Natural do Espírito Santo, Francisco vive da brisa. Vegetariano, o negócio dele é curtir o mar, a praia e o surf. O resto fica pra depois… Sentamos à beira mar e por horas conversamos sobre vários assuntos, quase que uma terapia para mim…

À noite eu comandei um churrasco no surf camp que até o Marcos, dono do local, não acreditou! “O pá, tu entendes do assunto”, disse. No dia seguinte acordei cedo, aluguei um carro e caí na estrada rumo à Lisboa. Chegando lá fiz questão de conhecer os principais pontos turísticos da região para ver de perto onde foi que Pedro Alvarez Cabral tomou a iniciativa de navegar até a Terra Brasilis.

Pastéuzinhos de Belém, bom demais... Foto: Andre M. Pinto

Pastéuzinhos de Belém, bom demais…                                 Foto: Andre M. Pinto

Aproveitei e fui comer um tradicional Pastel de Belém. Na verdade comi 6 e comprei outros 6 pra viagem. Nada mal! Depois segui até a praia de Caparica, uma região cheia de jovens universitários. Me senti de volta aos 18 anos! Todo mundo colocando o corpo pra malhar no começo do verão.

Caparica é muito interessante. A praia apesar de longa é dividida por canais de rochas à cada 300 metros, fazendo com que as ondas se afunilem. 1 metrão bem servido fez a cabeça, apesar de algumas maiores fecharem. Mas valeu a queda!

Há uma grande movintação de jovens na Costa da Caparica, o que faz o pico ser ainda mais especial Foto: Andre M. Pinto

Há uma grande movintação de jovens na Costa da Caparica, o que faz o pico ser ainda mais especial Foto: Andre M. Pinto

 

Costa da Caparica em Lisboa, altas ondas

Costa da Caparica em Lisboa, altas ondas                         Foto: Andre M. Pinto

Retornei à Peniche no fim da tarde e pude me energizar com um lindo por do sol na estrada. Ao chegar no surf camp sabia que algo ainda estava faltando antes do meu retorno à Praga: Surfar Supertubos.

Na manhã de sexta-feira acordei cedo decidido a surfar o pico mais famoso de Portugal. Cheguei lá por volta das 8 e 30 e já tinha gente saindo da água. As esquerdas não funcionavam bem, então ví uma mina surfando sozinha altas direitas mais próximas de Molhe Leste. Me joguei! Sem brincadeira, tinha umas valas com mais de 2 metros em que cabiam dois surfistas dentro do tubo. Eu me concentrei em não tomar uma dessas na cabeça e em remar nas que eu sentia mais segurança.

Depois de 15 minutos fiquei sozinho na água e por volta de quase 1 hora surfei algumas direitas da minha vida. Mas logo depois o vento começou a deterior as ondas e a correnteza passou a me puxar pra fora do pico. Após 2 horas saí, me troquei e sentei alí por uma meia hora para comer o café da manhã baseado em Pastéizinhos de Belém do dia anterior. Uma delícia!

Mas era cedo demais para desistir de mais uma queda. Com um lindo sol e temperaturas por volta dos 26 graus, decidi procurar outros picos na região, como não achei nada que realmente me empolgasse, apostei minhas fichas em Almagreira mais uma vez. E não me arrependi.

Alí foi a prova final! Eram ondas de 2 à 2 metros e meio quebrando perfeitamente. As esquerdas se alinhavam no outside e a última onda da série era de perder de vista. O crowd parecia um pouco maior do que no primeira dia em que estive lá, mas da maneira como estava quebrando, 6 pessoas na água era playground!

Conheci alí os verdadeiros locais “casca-grossa”. Um deles fluía sobre um pranchão stand-up e parecia ser o rei do pico. Mesmo assim não tive problemas e surfei por longas 6 horas ondas tão perfeitas que me faziam questionar se isso era verdade ou sonho. Um experiência inesquecível que certamente será em breve vivenciada novamente!

Linda Lisboa, um dia eu volto - obrigado Foto: Andre M. Pinto

Linda Lisboa, um dia eu volto – obrigado                            Foto: Andre M. Pinto

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2 comments on “Viajando na Europa: Portugal, surfe, sol e mar

  1. Beia Carvalho
    June 30, 2011

    Andre
    AMEI seu comentário no meu blog!
    Que bom que você gostou! Estou adorando as críticas.

    Conheci Paraga em 1998 e sou uma apaixonada pela cidade. O que você faz por estas bandas?

    Em breve, começo meu blog de viagens, tripsdabeia.com e aí te dou um alô

    beijos da beia
    5 Years From Now®

    • Andre M. Pinto
      June 30, 2011

      Eu moro em Praga, mas continuo antenado no que acontece no Brasil. Adorei seu blog e não podia deixar de comentar aquele texto. Obrigado por passar por aqui!
      Beijos,
      André

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This entry was posted on June 28, 2011 by in Português, Viagem.

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